O boto, conhecido em toda a América do Sul como boto-cor-de-rosa ou golfinho-cor-de-rosa, é o maior de todos os cetáceos de água doce e um dos predadores mais distintos das bacias amazônica e do Orinoco. Enquanto a maioria dos golfinhos vive em águas abertas, o boto caça entre os troncos de florestas sazonalmente inundadas, deslizando seu longo bico entre raízes submersas em busca de peixes. Após décadas em que dados escassos obscureciam sua situação, o monitoramento de longo prazo revelou uma espécie em declínio sustentado e de abrangência em toda a bacia [da Silva et al. 2018b; Martin & da Silva 2021]. Este perfil examina o que torna o boto biologicamente notável, as pressões que impulsionam suas perdas e as medidas que trabalham para revertê-las.
Biologia e Identificação
O boto é o maior golfinho de rio do mundo. Os machos atingem cerca de 2,5 m e massas superiores a 150 kg, substancialmente maiores do que as fêmeas — dimorfismo sexual incomum entre os cetáceos [Best & da Silva 1993]. É mais conhecido por sua coloração: os filhotes são de cor cinza-escura, mas os adultos frequentemente desenvolvem uma tonalidade rosada a rosa, mais pronunciada nos machos maduros, cuja cor é intensificada, acredita-se, por cicatrizes [Best & da Silva 1993].
Ao contrário dos golfinhos marinhos, o boto retém vértebras cervicais não fundidas, conferindo-lhe um pescoço flexível que gira a cabeça em um amplo arco [Best & da Silva 1993]. Combinada com nadadeiras largas em forma de remo e a capacidade de nadar de costas, essa flexibilidade permite ao animal manobrar entre troncos e vegetação submersa na floresta inundada durante a estação de cheias, explorando áreas de alimentação inacessíveis a outros golfinhos. Seu longo e esguio bico possui dentes diferenciados, adequados para agarrar e esmagar presas de corpo duro, e a dieta é excepcionalmente ampla — cerca de 50 espécies de peixes, além de tartarugas de rio e crustáceos de água doce [Best & da Silva 1993].
Os botos dependem da ecolocalização em águas turvas onde a visão é de uso limitado. Geralmente são solitários ou encontrados em grupos pequenos e dispersos, e seu ciclo reprodutivo é lento — longos intervalos de parição e cuidado materno prolongado tornam as populações lentas na recuperação de perdas [Best & da Silva 1993; Martin & da Silva 2021].
Hábitat e Distribuição
O boto ocupa os grandes sistemas fluviais da América do Sul tropical, nas bacias do Amazonas e do Orinoco e seus principais afluentes no Brasil, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Venezuela e Guiana [da Silva et al. 2018]. Distribui-se por canais principais e secundários, lagos e confluências, e durante o pulso anual de cheia migra para florestas e planícies aluviais inundadas. Essa dependência do ciclo de cheias vincula a espécie à hidrologia sazonal da bacia e a torna sensível a qualquer alteração nos níveis d'água, na conectividade ou na temperatura.
Três subespécies são reconhecidas nessa área de distribuição [da Silva et al. 2018]. Como a distribuição do boto segue redes fluviais contínuas em vez de manchas discretas, a fragmentação — por barragens ou pelo isolamento de lagos de planícies aluviais induzido por secas — tem consequências desproporcionais para a espécie.
Em conformidade com a política de espécies sensíveis da NRWL, localizações específicas de sítios, rotas de corredores e detalhes de movimentos sazonais não são divulgados neste artigo.
Estado de Conservação
O boto está listado como Em Perigo na Lista Vermelha da UICN, avaliado pelo critério A em 2018 [da Silva et al. 2018]. Isso representou uma mudança significativa: a espécie havia sido anteriormente categorizada como Dados Insuficientes porque os dados sobre seus números, ecologia e tendências eram insuficientes para sustentar uma classificação de ameaça. Em 2018, dados de longo prazo aprimorados tornaram o caso para o upalisting claro [da Silva et al. 2018].
A evidência por trás dessa listagem está entre as mais sólidas para qualquer mamífero amazônico. Um programa de monitoramento de 22 anos na Reserva Mamirauá, no Brasil — um dos conjuntos de dados contínuos de cetáceos mais longos da região — registrou um declínio sustentado do boto, rápido o suficiente para reduzir à metade a população a cada dez anos aproximadamente, com o tucuxi coocorrente declinando ainda mais rapidamente [da Silva et al. 2018b]. Uma análise de viabilidade populacional posterior projetou uma redução de 95% em 50 anos em todos os cenários modelados, a menos que a matança e a captura acidental sejam reduzidas, alertando que o boto corre o risco de seguir o caminho do golfinho-do-rio-Yangtze, funcionalmente extinto, se as pressões atuais continuarem [Martin & da Silva 2021].
Ameaças
A matança para uso como isca de pesca está entre as pressões mais agudas. Os botos são deliberadamente abatidos e suas carcaças usadas como isca para a piracatinga (Calophysus macropterus), um bagre necrófago. Pesquisadores documentaram cicatrizes de arpão e facão em animais capturados, e entrevistas com pescadores confirmaram a matança deliberada para obtenção de isca [da Silva et al. 2018b]. O Brasil impôs uma moratória na pesca da piracatinga em 2015 para aliviar essa pressão, mas a fiscalização tem sido inconsistente e a matança continuou [IUCN-CSG 2015; IUCN-CSG 2020].
A captura acidental em redes de emalhar afoga golfinhos que ficam presos em equipamentos de pesca, afetando fortemente os filhotes nas áreas onde golfinhos e pescarias compartilham as mesmas águas produtivas [Martin & da Silva 2021].
Barragens e fragmentação de hábitat rompem as redes fluviais das quais a espécie depende; o desenvolvimento hidrelétrico perturba o pulso de cheias, bloqueia a movimentação e isola subpopulações [Martin & da Silva 2021].
A contaminação por mercúrio, proveniente principalmente da mineração artesanal e industrial de ouro e da queima de florestas, acumula-se pela cadeia alimentar aquática. O mercúrio foi medido no tecido muscular do boto em toda a bacia amazônica e do Orinoco, identificando-o como uma ameaça crescente à espécie e às pessoas que consomem os mesmos peixes [Mosquera-Guerra et al. 2019].
Secas extremas e calor afetaram severamente a espécie em 2023, quando mais de 200 carcaças de golfinhos de água doce foram recuperadas do Lago Tefé durante uma seca histórica. Medições e modelagens documentaram a temperatura da água do lago atingindo cerca de 41 °C — além da tolerância térmica dos animais — à medida que lagos rasos, turbulentos e abrigados superaqueceram sob sol intenso [Fleischmann et al. 2025].
O Que Está Sendo Feito
Monitoramento populacional de longo prazo. O programa de décadas de Mamirauá é a base empírica para a conservação da espécie, fornecendo os dados de tendência por trás da avaliação da UICN e da análise de viabilidade populacional [da Silva et al. 2018b; Martin & da Silva 2021]. A continuação de contagens padronizadas permite detectar declínios e avaliar medidas em relação a trajetórias reais.
Regulamentação pesqueira. A moratória brasileira de 2015 sobre a pesca da piracatinga foi introduzida para reduzir a matança de golfinhos para isca e abordar o risco de mercúrio que o bagre representa para os consumidores [IUCN-CSG 2015]. Os órgãos de conservação têm reiteradamente solicitado que ela seja mantida e fiscalizada, uma vez que a fiscalização fraca permite que o comércio de isca — e a matança — retomem [IUCN-CSG 2020].
Investigação de mortalidade em massa. O evento de 2023 no Lago Tefé foi documentado e analisado por pesquisadores do Instituto Mamirauá, produzindo evidências revisadas por pares vinculando as mortes de golfinhos ao aquecimento extremo do lago e uma base para monitoramento e alerta precoce à medida que as secas se intensificam [Fleischmann et al. 2025].
Proteção cultural. Em grande parte da Amazônia, o boto está inserido na lenda do encantado — um golfinho que se transforma em pessoa — e a crença tradicional de que prejudicar um golfinho traz infortúnio tem historicamente desestimulado a matança em algumas comunidades [Best & da Silva 1993]. Esses valores permanecem uma forma real, embora irregular, de proteção local sobre a qual os programas de conservação podem se apoiar.
Como os Leitores Podem Ajudar
Ciência cidadã. Fotografe e registre observações de vida selvagem em plataformas como o iNaturalist. Registros de ocorrência verificados contribuem para o mapeamento de distribuição e as avaliações que embasam o estado de conservação.
Engajamento político. Apoie medidas que mantenham e fiscalizem as restrições à pesca de isca com piracatinga, regulamentem o uso de redes de emalhar, restrinjam a poluição por mercúrio da mineração de ouro e exijam rigorosa revisão ambiental dos projetos de barragens na Amazônia.
Escolhas de consumo conscientes. Evite peixes de origem incerta em regiões afetadas pelo comércio de isca e apoie operadoras de turismo que comprovadamente evitam prejudicar golfinhos de rio.
Divulgação educativa. Compartilhe informações precisas e baseadas em ciência sobre o declínio do boto e seus fatores — matança para isca, captura acidental, mercúrio, barragens e secas.
Referências
[Best & da Silva 1993] Best, R.C. & da Silva, V.M.F. (1993). Inia geoffrensis. Mammalian Species, 426, 1–8. https://doi.org/10.2307/3504090
[da Silva et al. 2018] da Silva, V., Trujillo, F., Martin, A., Zerbini, A.N., Crespo, E., Aliaga-Rossel, E. & Reeves, R. (2018). Inia geoffrensis. The IUCN Red List of Threatened Species 2018: e.T10831A50358152. https://doi.org/10.2305/IUCN.UK.2018-2.RLTS.T10831A50358152.en
[Fleischmann et al. 2025] Fleischmann, A.S. et al. (2025). Extreme warming of Amazon waters in a changing climate. Science. https://doi.org/10.1126/science.adr4029
[IUCN-CSG 2015] IUCN SSC Cetacean Specialist Group. (2015). Amazon dolphins as fish bait: Brazil introduces a moratorium on piracatinga fishing. https://iucn-csg.org/amazon-dolphins-as-fish-bait-brazil-introduces-a-moratorium-on-piracatinga-fishing/
[IUCN-CSG 2020] IUCN SSC Cetacean Specialist Group. (2020). Amazon River dolphins in Brazil continue to be killed for fish bait. https://iucn-csg.org/amazon-river-dolphins-in-brazil-continue-to-be-killed-for-fish-bait/
[Martin & da Silva 2021] Martin, A.R. & da Silva, V.M.F. (2021). Amazon river dolphins Inia geoffrensis are on the path to extinction in the heart of their range. Oryx, 56(4), 587–591. https://doi.org/10.1017/S0030605320001350
[Mosquera-Guerra et al. 2019] Mosquera-Guerra, F., Trujillo, F., Parks, D., Oliveira-da-Costa, M., Van Damme, P.A., Echeverría, A., Franco, N., Carvajal-Castro, J.D., Mantilla-Meluk, H., Marmontel, M. & Armenteras-Pascual, D. (2019). Mercury in Populations of River Dolphins of the Amazon and Orinoco Basins. EcoHealth, 16, 743–758. https://doi.org/10.1007/s10393-019-01451-1
[da Silva et al. 2018b] da Silva, V.M.F., Freitas, C.E.C., Dias, R.L. & Martin, A.R. (2018). Both cetaceans in the Brazilian Amazon show sustained, profound population declines over two decades. PLOS ONE, 13(5), e0191304. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0191304