Uma Arara Azul-cobalto que se Recuperou de ~150 Aves para Mais de 2.000
A arara-de-lear — também chamada de arara-índigo — é uma grande arara azul-cobalto endêmica de uma pequena área da Caatinga no interior do estado da Bahia, no nordeste do Brasil. É um dos casos de sucesso mais silenciosos do movimento conservacionista: a população selvagem, estimada em aproximadamente 150 aves no final da década de 1980, se recuperou para mais de 2.000 indivíduos no início da década de 2020 por meio de proteção sustentada do habitat, combate à caça ilegal e engajamento comunitário [BirdLife International 2021; ICMBio 2024]. A IUCN rebaixou a espécie de Em Perigo Crítico para Em Perigo em 2009, refletindo essa recuperação, e a população continuou a crescer desde então.
A arara-de-lear é parente próxima da arara-de-spix (também perfilada na NRWL) e da arara-azul-grande — os três membros do gênero Anodorhynchus, todos azuis, todos brasileiros, todos severamente afetados pelo comércio internacional de psitacídeos. A recuperação da arara-de-lear oferece um contraponto à extinção na natureza da arara-de-spix: a diferença foi o momento da intervenção e a persistência de uma população selvagem grande o suficiente para se reconstruir.
Biologia e identificação
Anodorhynchus leari é uma arara grande, com aproximadamente 70–75 cm de comprimento [Juniper & Parr 1998]. A plumagem é azul-cobalto metálica profunda, ligeiramente mais pálida e acinzentada na cabeça, com uma distintiva mancha de pele nua amarela em formato de lágrima na base da mandíbula inferior e um anel ocular amarelo. É menor do que a arara-azul-grande (com a qual se assemelha superficialmente) e maior do que a arara-de-spix.
A espécie é especialista alimentar nas nozes da palmeira licuri (Syagrus coronata) — a noz de licuri constitui a grande maioria de sua dieta, e a distribuição da arara acompanha de perto os palmeirais de licuri [Yamashita 1987]. Essa dependência alimentar única é o fato estrutural que rege a conservação da arara-de-lear: proteger e restaurar os palmeirais de licuri é funcionalmente equivalente a proteger a arara.
As araras-de-lear nidificam e dormem colonialmente em tocas escavadas em paredões de arenito na Caatinga — um segundo requisito específico de habitat (paredões adequados para nidificação) além da dependência alimentar do licuri. Os casais são socialmente monogâmicos; o sucesso reprodutivo é monitorado de perto nos principais paredões de nidificação.
Habitat e distribuição
Endêmica de uma área muito pequena do bioma Caatinga no nordeste da Bahia, Brasil — principalmente na região do Raso da Catarina e nos municípios de Canudos, Jeremoabo e Euclides da Cunha [BirdLife International 2021]. Os dois principais sítios de nidificação em paredões ficam em Toca Velha e Serra Branca. A área de distribuição total é suficientemente pequena que toda a população selvagem global pode ser (e é) contada nos paredões de dormitório coletivo durante censos anuais coordenados.
A Caatinga é um bioma de mata seca e vegetação arbustiva semiárida que foi fortemente degradado pelo superpastejo (especialmente de cabras, que também consomem as mudas de licuri), pela conversão para a agricultura e pela produção de carvão vegetal. A combinação da distribuição restrita da arara, da dependência de um único alimento e do requisito específico de substrato para nidificação tornava-a extremamente vulnerável — mas também tornava a intervenção direcionada viável.
Status de conservação
A arara-de-lear está listada como Em Perigo na Lista Vermelha da IUCN (rebaixada de Em Perigo Crítico em 2009) [BirdLife International 2021]. Ela consta no Apêndice I do CITES, proibindo o comércio internacional comercial. A legislação federal brasileira a classifica como espécie protegida; os principais sítios de nidificação estão dentro de áreas protegidas geridas pelo ICMBio (a agência brasileira de biodiversidade), incluindo a Estação Ecológica Raso da Catarina e reservas dedicadas.
A recuperação populacional de ~150 (final da década de 1980) para mais de 2.000 (início da década de 2020) está documentada por meio de contagens anuais coordenadas nos dormitórios coletivos nos paredões [ICMBio 2024].
Ameaças
A captura ilegal histórica para o comércio internacional de animais de estimação foi o principal fator do declínio no final do século XX. Como uma das poucas espécies de arara azul de grande porte, a arara-de-lear atingia preços extremos no mercado ilegal de colecionadores. O Apêndice I do CITES e a proteção intensiva nos paredões de nidificação reduziram substancialmente (embora não tenham eliminado totalmente) a pressão de captura. A vigilância contínua contra a caça ilegal nos paredões de nidificação permanece necessária.
Degradação do habitat da palmeira licuri — o superpastejo pelo gado (particularmente cabras) impede a regeneração da palmeira licuri; a conversão para agricultura e a produção de carvão reduzem os palmeirais. Como a arara é especialista em licuri, a perda de palmeirais limita diretamente a população. A restauração do habitat (plantio de palmeiras, manejo do pastejo) é uma atividade central de conservação.
Conflito com lavouras — com a recuperação da população, as araras-de-lear passaram a se alimentar de lavouras de milho em algumas áreas, gerando conflito com agricultores locais. Os programas de conservação trabalharam para compensar ou mitigar danos às lavouras, a fim de manter o apoio comunitário à espécie — um exemplo notável de como o próprio sucesso da recuperação pode criar um novo desafio de manejo.
Distribuição restrita e concentração populacional — toda a população global ocupa uma área pequena e dorme em poucos paredões coletivos, tornando-a teoricamente vulnerável a uma catástrofe localizada (doença, condições climáticas extremas, incêndio). A recuperação é real, mas a espécie permanece geograficamente concentrada.
O que está sendo feito
- ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) — a agência federal brasileira que gerencia as áreas protegidas contendo os paredões de nidificação e coordena o censo anual.
- Fundação Biodiversitas — uma ONG conservacionista brasileira que tem sido central para a recuperação da arara-de-lear, incluindo a compra e proteção de habitat-chave (a Estação Biológica de Canudos protege um principal paredão de nidificação) e o desenvolvimento de programas de restauração do licuri.
- Parrots International e a American Bird Conservancy — parceiros internacionais que apoiam a recuperação por meio de financiamento e suporte técnico.
- Loro Parque Fundación — tem apoiado a conservação da arara-de-lear e mantém uma pequena população em cuidado gerenciado como salvaguarda de reserva genética.
- Engajamento comunitário e mitigação de conflitos com lavouras — programas para manter o apoio local à espécie entre os agricultores da Caatinga, incluindo esquemas de compensação e suporte a culturas alternativas.
- Restauração da palmeira licuri — programas de plantio e manejo do pastejo para expandir a base alimentar.
Como os leitores podem ajudar
- Apoie a Fundação Biodiversitas e a Parrots International. Ambas são canais diretos para o trabalho de recuperação da arara-de-lear no campo, na Bahia, incluindo a compra de habitat, a proteção dos paredões de nidificação e a restauração do licuri.
- Nunca compre araras nem qualquer psitacídeo do Apêndice I do CITES. O comércio ilegal que quase eliminou a arara-de-lear — e que levou a arara-de-spix à extinção na natureza — é sustentado pela demanda de colecionadores. O Apêndice I do CITES proíbe o comércio internacional comercial de araras-de-lear, araras-de-spix e araras-azuis-grandes.
- Apoie a conservação da Caatinga brasileira de forma ampla. A SAVE Brasil (parceira do BirdLife no Brasil), a Conservation International–Brasil e a SOS Mata Atlântica trabalham na conservação em escala de bioma que beneficia a arara-de-lear ao lado de muitos outros endemismos da Caatinga (incluindo a arara-de-spix, agora em processo de reintrodução).
- Viaje de forma responsável à Caatinga. O ecoturismo para observação dos paredões de dormitório da arara-de-lear (gerenciado por meio de Canudos e operadores autorizados pelo ICMBio) gera renda para as comunidades locais e reforça o argumento econômico pela proteção da espécie.
- Leia o contraste com a arara-de-spix. Os resultados divergentes das duas espécies — arara-de-lear recuperada, arara-de-spix perdida na natureza — dependeram da existência de uma população selvagem viável quando a intervenção começou. Apoiar a intervenção precoce em espécies atualmente em declínio é a lição generalizável.
Última verificação: 2026-05-24 Status de conservação: Em Perigo (avaliação da Lista Vermelha da IUCN 2021; rebaixada de Em Perigo Crítico em 2009); Apêndice I do CITES; população recuperada de ~150 para mais de 2.000.
Referências
- BirdLife International (2021). Anodorhynchus leari. IUCN Red List of Threatened Species. e.T22685521A204469855.
- ICMBio (2024). Plano de Ação Nacional para a Conservação da Arara-azul-de-Lear — annual census update. Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade. https://www.gov.br/icmbio/
- Juniper, T., & Parr, M. (1998). Parrots: A Guide to Parrots of the World. Yale University Press.
- Yamashita, C. (1987). Field observations and comments on the Indigo Macaw (Anodorhynchus leari), a highly endangered species from northeastern Brazil. Wilson Bulletin 99(2): 280–282.