Na década de 1970, uma única agregação de desova das Bahamas da garoupa-de-nassau podia reunir entre 30.000 e 100.000 peixes em um único recife a cada inverno; hoje, a maioria das agregações conhecidas conta apenas com dezenas ou centenas de indivíduos, e muitas desapareceram completamente [Sadovy et al. 2018]. Outrora a espinha dorsal das pescarias de recife do Caribe, este grande predador de crescimento lento sofreu um declínio superior a 80% ao longo de três gerações, levando a IUCN a classificá-lo como Em Perigo Crítico em 2018 [Sadovy et al. 2018]. O que provocou sua queda é também um de seus traços mais notáveis: a espécie se reúne em números vastos e previsíveis para se reproduzir, comportamento que concentra todo o estoque reprodutor de uma região em poucos locais em algumas épocas do ano [Smith 1972; Sadovy et al. 2018].
Biologia e Identificação
A garoupa-de-nassau, Epinephelus striatus (Bloch, 1792), é um peixe marinho de nadadeiras raiadas da família Serranidae, a dos robalo-da-pedra e garoupas [Sadovy et al. 2018]. Os adultos atingem comprimento total máximo de pouco mais de 1 m e peso de cerca de 25 kg, embora a maioria dos indivíduos seja consideravelmente menor; a espécie é longeva, podendo chegar a pelo menos 29 anos de idade [NOAA Fisheries 2024]. É identificada por um corpo bege a acastanhado atravessado por cinco barras verticais escuras e irregulares, uma mancha preta característica em forma de "sela" na base superior da cauda e um padrão escuro de garfo de diapasão que começa no focinho e se bifurca entre os olhos [NOAA Fisheries 2024]. A coloração é altamente plástica: um indivíduo pode mudar em questão de minutos de quase branco a quase uniformemente marrom-escuro, dependendo do comportamento e do estado emocional [NOAA Fisheries 2024].
As garoupas-de-nassau são carnívoras que caçam por emboscada e sucção. Os adultos se alimentam principalmente de outros peixes, enquanto os jovens têm uma dieta mais variada, incluindo camarões, caranguejos e outros invertebrados [NOAA Fisheries 2024]. Reprodutivamente, a espécie atinge a maturidade por volta dos 4 a 5 anos e cerca de 50 cm de comprimento total, com variação temporal conforme a região [SCRFA 2018]. Ao contrário de muitas garoupas, não é um hermafrodita protogínico simples; é descrita como funcionalmente gonocorística, passando por uma fase juvenil bissexual inicial e possivelmente retendo alguma capacidade de mudança de sexo [SCRFA 2018]. O comportamento reprodutivo definidor é a agregação de desova em massa: peixes maduros viajam até locais tradicionais e liberam ovos e espermatozoides juntos na coluna d'água por algumas noites em torno da lua cheia do inverno, estratégia que maximiza a fertilização, mas também concentra a população reprodutora no espaço e no tempo [Smith 1972; Sadovy et al. 2018].
Habitat e Distribuição
A garoupa-de-nassau ocupa as águas tropicais e subtropicais do Atlântico Norte ocidental e do Caribe ampliado, com registros nas Bermudas, no sul da Flórida, nas Bahamas, nas Ilhas Virgens dos EUA, em Porto Rico, nas Pequenas Antilhas e ao sul até as costas da América Central e do norte da América do Sul [NOAA Fisheries 2024; Sadovy et al. 2018]. Está praticamente ausente do Golfo do México [Sadovy et al. 2018].
A espécie está fortemente ligada aos ecossistemas de recifes de coral e muda de habitat à medida que cresce. As larvas são planctônicas; os juvenis em fixação ocupam pradarias de gramíneas marinhas costeiras e habitats de macroalgas; e os adultos migram para recifes de coral de alto relevo e fundos rochosos em águas claras, ocorrendo desde recifes rasos até profundidades superiores a 100 m [NOAA Fisheries 2024]. Como a espécie depende de um pequeno número de recifes de agregação tradicionais para se reproduzir, sua área de reprodução efetiva é muito menor do que sua ampla distribuição geográfica sugere, e a perda de sítios de agregação individuais eliminou populações locais em toda a sua área de ocorrência [Sadovy et al. 2018; SCRFA 2018].
A distribuição se contraiu acentuadamente nas últimas décadas. As pescarias baseadas em agregações que antes operavam em muitos países caribenhos entraram em colapso, e de mais de 100 sítios de agregação historicamente documentados distribuídos por cerca de um terço dos países e territórios do Caribe, uma proporção substancial está agora inativa ou muito reduzida [SCRFA 2018; Sadovy et al. 2018]. Em conformidade com a política de espécies sensíveis do NRWL, localizações específicas dos sítios, detalhes de movimentação sazonal e coordenadas de toca ou ninho não são divulgados neste artigo.
Status de Conservação
A garoupa-de-nassau é avaliada como Em Perigo Crítico (CR) na Lista Vermelha da IUCN, na avaliação de 2018 realizada por Sadovy de Mitcheson e colegas [Sadovy et al. 2018]. Isso representa uma elevação em relação à sua classificação anterior de Em Perigo (EN), refletindo evidências de que as populações, incluindo as agregações de desova, diminuíram em mais de 80% ao longo de três gerações (aproximadamente de 1980 a 2018, com um comprimento de geração de cerca de 16 anos) [Sadovy et al. 2018; WCS 2018]. A IUCN observa que a população global, embora ainda contando com mais de 10.000 indivíduos maduros, continua diminuindo [Sadovy et al. 2018].
Em relação à CITES: apesar da gravidade do declínio da espécie, a garoupa-de-nassau não está atualmente listada em nenhum apêndice da CITES. Propostas de comércio internacional foram discutidas, mas nenhuma listagem na CITES foi adotada até o momento [Sadovy et al. 2018]. (Nota: um parâmetro de dados interno fornecido para este artigo indicava "CITES Apêndice II"; as fontes autorizadas não corroboram uma listagem atual na CITES, portanto o status preciso é reportado aqui.)
Além da IUCN, a espécie conta com proteção formal na jurisdição dos EUA. O Serviço Nacional de Pescarias Marinhas dos EUA classificou a garoupa-de-nassau como Ameaçada ao abrigo da Lei das Espécies em Extinção, com vigência a partir de 2016, e finalizou a designação de habitat crítico nas águas dos EUA em 2024 [NOAA Fisheries 2024; Federal Register 2024]. A captura e a posse são proibidas nas águas federais dos EUA [NOAA Fisheries 2024].
Ameaças
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Pesca em agregações de desova. O principal fator de declínio é a pesca direcionada a agregações de desova previsíveis e densas. Como todo o estoque reprodutor local se concentra em locais conhecidos em épocas conhecidas, mesmo curtos períodos de captura podem remover uma parcela desproporcional de adultos reprodutores e causar o colapso permanente das agregações [Sadovy et al. 2018; SCRFA 2018].
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Vulnerabilidade das características do ciclo de vida. O crescimento lento, a maturidade tardia (4 a 5 anos), a longevidade e a dependência da desova em agregação tornam a espécie intrinsecamente lenta em se recuperar do esgotamento, fazendo com que as populações se reconstituam muito mais devagar do que declinam [SCRFA 2018; Sadovy et al. 2018].
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Perda de sítios de agregação. Uma vez extirpada uma agregação, os juvenis que ela teria produzido desaparecem, e as pescarias que dependem desses recrutas fracassam; a perda de agregações é, portanto, tanto uma causa quanto uma consequência do declínio [Sadovy et al. 2018].
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Degradação do habitat. A perda de recifes de coral, o declínio das pradarias de gramíneas marinhas e a poluição costeira reduzem o habitat de berçário e de adultos que a espécie necessita ao longo de suas fases de vida [NOAA Fisheries 2024].
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Mudanças climáticas. O aquecimento e as mudanças nas condições oceânicas afetam a saúde dos recifes e a fisiologia da espécie; trabalhos experimentais mostram que extremos de temperatura sazonais prejudicam a função cardiorrespiratória e o desempenho natatório da garoupa-de-nassau [NOAA Fisheries 2024].
O Que Está Sendo Feito
Um conjunto crescente de evidências mostra que a proteção bem fiscalizada das agregações de desova pode reverter o declínio. Nas Ilhas Cayman, o governo estabeleceu zonas protegidas e fechamentos sazonais ao redor das agregações de garoupa; o monitoramento de longo prazo por uma parceria de pesquisa documentou a recuperação da agregação de Little Cayman de aproximadamente 1.256 peixes em 2009 para cerca de 7.070 peixes em 2018, tornando-a uma das maiores agregações conhecidas de garoupa-de-nassau no mundo [Waterhouse et al. 2020]. Os autores concluíram que fechamentos espaciais e sazonais, aliados à fiscalização eficaz contra a pesca ilegal, podem reconstruir espécies que formam agregações [Waterhouse et al. 2020].
Nos Estados Unidos, o NOAA Fisheries proíbe a captura em águas federais, listou a espécie como Ameaçada ao abrigo da Lei das Espécies em Extinção e, em 2024, designou habitat crítico para proteger áreas de recife importantes para o ciclo de vida da espécie [NOAA Fisheries 2024; Federal Register 2024]. Em todo o Caribe, a Wildlife Conservation Society e parceiros apoiam programas de monitoramento de agregações de desova (SPAG) e de fechamento sazonal, incluindo em Belize, para rastrear e proteger as agregações remanescentes [WCS 2018]. A rede Science and Conservation of Fish Aggregations compila dados de agregações globalmente para embasar o manejo e identificar sítios que necessitam de proteção [SCRFA 2018].
Como os Leitores Podem Ajudar
Os leitores podem apoiar a conservação dos peixes de recife por meio de diversas iniciativas construtivas e baseadas em fatos. Mergulhadores recreativos e praticantes de snorkeling podem contribuir com observações de garoupas e outras espécies de recife em plataformas de ciência cidadã, como o Projeto de Levantamento Voluntário de Peixes do REEF, que constrói os conjuntos de dados de longo prazo que fundamentam as avaliações da saúde das agregações [SCRFA 2018]. Ao escolher frutos do mar, os consumidores podem consultar guias de sustentabilidade baseados em ciência e evitar a compra de garoupa-de-nassau, cuja captura é proibida nas águas dos EUA e desestimulada em toda a região [NOAA Fisheries 2024]. Os cidadãos também podem participar de consultas de gestão de pescarias e períodos de comentários públicos, como os que o NOAA Fisheries abre para decisões de listagem e de habitat crítico, a fim de expressar apoio informado à proteção das agregações de desova [Federal Register 2024]. Por fim, compartilhar informações precisas sobre a importância das agregações de desova ajuda a construir a compreensão pública que sustenta políticas de conservação de longo prazo [Waterhouse et al. 2020].
Referências
[Federal Register 2024] National Marine Fisheries Service (2024). Endangered and Threatened Species; Designation of Critical Habitat for the Nassau Grouper. Federal Register, 89 FR 17 (January 2, 2024). https://www.federalregister.gov/documents/2024/01/02/2023-28483/endangered-and-threatened-species-designation-of-critical-habitat-for-the-nassau-grouper
[NOAA Fisheries 2024] NOAA Fisheries (2024). Nassau Grouper (Epinephelus striatus) — Species Directory. National Oceanic and Atmospheric Administration, U.S. Department of Commerce. https://www.fisheries.noaa.gov/species/nassau-grouper
[Sadovy et al. 2018] Sadovy, Y., Aguilar-Perera, A. & Sosa-Cordero, E. (2018). Epinephelus striatus. The IUCN Red List of Threatened Species 2018: e.T7862A46909843. https://dx.doi.org/10.2305/IUCN.UK.2018-2.RLTS.T7862A46909843.en
[SCRFA 2018] Society for the Conservation of Reef Fish Aggregations (2018). Epinephelus striatus — Nassau Grouper. SCRFA Aggregating Species database. https://www.scrfa.org/aggregations/aggregating-species/epinephelus-striatus-nassau-grouper/
[Smith 1972] Smith, C.L. (1972). A spawning aggregation of Nassau grouper, Epinephelus striatus (Bloch). Transactions of the American Fisheries Society, 101(2), 257–261. https://doi.org/10.1577/1548-8659(1972)101%3C257:ASAONG%3E2.0.CO;2
[Waterhouse et al. 2020] Waterhouse, L., Heppell, S.A., Pattengill-Semmens, C.V., McCoy, C., Bush, P., Johnson, B.C. & Semmens, B.X. (2020). Recovery of critically endangered Nassau grouper (Epinephelus striatus) in the Cayman Islands following targeted conservation actions. Proceedings of the National Academy of Sciences, 117(3), 1587–1595. https://doi.org/10.1073/pnas.1917132117
[WCS 2018] Wildlife Conservation Society (2018). Nassau Grouper Becomes Critically Endangered. WCS Newsroom. https://newsroom.wcs.org/News-Releases/articleType/ArticleView/articleId/11842/Nassau-Grouper-Becomes-Critically-Endangered.aspx